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Quem se irrita com o Brasil “de cabeça para baixo” provavelmente não entendeu uma das primeiras lições da geografia: norte para cima não é uma lei da natureza, é apenas uma convenção cartográfica.
A Terra é uma esfera. No espaço, não existe “em cima” ou “embaixo”. Norte, Sul, Leste e Oeste são apenas referenciais criados para facilitar localização e orientação. Por isso, virar o mapa do Brasil não muda absolutamente nada: os estados continuam no mesmo lugar, as fronteiras permanecem iguais e o país segue exatamente o mesmo.

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Sim, eu falei sobre isso na época.

O pessoal gosta de falar de quem acredita em Terra plana, mas falar que o mapa “de cabeça para baixo” está errado do ponto de vista físico e/ou cartográfico é igualmente grave... E eu não estou utilizando de hipérbole.

Outra crítica que eu vi foi que era “mapa ideológico” como se todo mapa não fosse ideológico. Todo mapa reflete visão de mundos, valores, recortes da realidade e relações de poder... O fato de decidir representar o norte em cima e o sul em baixo ou vice-versa é uma decisão ideológica, ainda que uma seja mais consensual (ou hegemônica) do que outra. Todo discurso é ideológico, não existe discurso neutro.
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Faça a dancinha da vitória: sua resposta foi escolhida como a melhor. laugh

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com certeza tudo tem o dedo da política

todos querem um mapa que os destaque,
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E outra, representações cartográficas existem aos montes. Só quem reclama desse tipo de coisa são as hordas de desocupados educados à tiktok
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Gostei disto aí

^^

Eis uma forma fácil de mudar o mundo...rs
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Sim, isso é verdade.

Existem mapas à venda que são ao contrário; é até legal.

Mas o que não gosto é que assim a Argentina fica acima de nós.
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Parece que o pessoal não sabe para quê serve um mapa. Vamos parar de viajar na maionese e voltar para a terra firme.

Embora o ponto de vista físico e astronômico esteja correto, e a Terra seja um esferoide oblato suspenso no espaço, não possuindo um "acima" ou "abaixo" absolutos, transpor isso para a cartografia e a geopolítica é um erro de categoria.

Existe uma diferença muito importante entre a realidade física do planeta e a função instrumental de um mapa.

Mapas não são apenas expressões de poder ou escolhas ideológicas arbitrárias; eles são, antes de tudo, ferramentas de comunicação técnica e padronização global. A convenção do Norte para cima e o Meridiano de Greenwich no centro não se mantém de forma hegemônica hoje por mero capricho eurocêntrico, mas sim porque a ciência e a navegação global exigem um sistema de coordenadas universal para funcionar.

Propor representações com o Sul para cima ou descentralizadas pode até servir como um exercício acadêmico de retórica ou provocação geopolítica, mas na prática, mais confunde do que ajuda, por vários motivos.

Em primeiro lugar, a cartografia opera sob o princípio da interoperabilidade. Sistemas de aviação, navegação marítima, satélites, meteorologia e softwares de geolocalização (como o GPS) dependem de uma linguagem visual e matemática unificada. Subverter essa convenção exige um esforço desnecessário para reinterpretar dados que já são consensuais mundialmente. O mapa deve facilitar a leitura imediata, e não se tornar um enigma visual para provar um ponto político.

Em segundo lugar, dizer que "todo mapa é puramente ideológico" é tão simplista que ignora a evolução metodológica da geografia. A projeção de Mercator, por exemplo, foi desenhada no século XVI com o objetivo estritamente prático de preservar as direções (linhas de rumo constante) para a navegação marítima, e não para inflar o tamanho da Europa por complexo de superioridade, por exemplo. Confundir distorções geométricas inevitáveis (já que é matematicamente impossível planificar uma esfera sem distorcer áreas ou ângulos) com uma conspiração ideológica deliberada é ignorar os limites técnicos da própria cartografia.

Por último, as convenções existem para gerar ordem e previsibilidade. Escrever um mapa na contramão do padrão globalizado, sob o pretexto de que "no espaço não há direção", é uma atitude tão burra quanto propor começar a dirigir pelo lado esquerdo da pista no Brasil porque a escolha do lado direito é "apenas uma convenção social". Tecnicamente é verdade que é uma convenção, mas violá-la destrói a utilidade pública do sistema.

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Se eficiência operacional esgotasse conceito de utilidade, várias coisas seriam inúteis... Filosofia seria inútil, literatura seria inútil, experimentos pedagógicos seriam inúteis, etc.

Definir que o único uso plenamente legítimo do mapa é operacional não é um dado científico auto-evidente, mas posição ideológica sobre cartografia.
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Basicamente o que você está dizendo é que eficiência técnica não apaga a dimensão simbólica das convenções, e eu nunca discordei disso. O que eu disse é que uma convenção ter determinada origem histórica ou simbólica não invalida sua função teórica e técnica.
por (114K pontos)
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Filosofia e literatura pertencem às ciências humanas e às artes (ainda que a filosofia sim tenha implicações práticas significativas). A cartografia moderna é uma ciência exata aplicada, ligada à engenharia, geodésia e navegação. Equiparar a função de um mapa ao papel da poesia é um erro básico de categoria.
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Ninguém está dizendo que invalida, e muito menos que devemos desconstruir padrões consolidados por pragmatismo. Mas mapa não é só para navegar, não...

Mapas foram frequentemente instrumentalizados por regimes coloniais e/ou totalitários para afirmar soberania, apagar populações, organizar exploração territorial, e etc. O nazismo usava mapas para reorganização técnica e sustentar o conceito de espaço vital, assim como a União Soviética manipulava mapas por razões estratégicas... A África vive sob guerras civis intermináveis porque o mapa do continente foi desenhado por europeus lá no século XIX e ignorou totalmente os povos nativos; sem falar de disputas territoriais contemporâneas como as que eu citei acima — se você coloca ou não Israel ou Kosovo no mapa; se você põe Taiwan como um país; se você põe Crimeia como parte da Rússia ou da Ucrânia são todas decisões ideológicas.

A educação deve limitar-se exclusivamente a ensinar padrões técnicos e descartar todo o resto (cartogramas, mapas teológicos, mapas históricos, mapas artísticos e etc)? Ou a educação deve, além de ensinar o técnico, ensinar também reflexão crítica sobre como esses padrões surgem e operam culturalmente? Doutrinação é ensinar que convenções existem, ou é ensinar que convenções específicas são naturais e/ou inevitáveis? Ensinar outro padrão necessariamente nos obriga a descartar o que é consolidado? Não sei qual é sua opinião sobre... Mas, seja ela qual for, é uma opinião ideológica também.
por (71,5K pontos)
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Cartografia é ciência exata, mas não a torna isenta de interpretação social. Só pensar em arquitetura...

Isso não é confusão de categorias, é interdisciplinaridade.

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