Se a salvação é pela fé em Cristo somente, e quanto aos não evangelizados? E os povos não alcançados? Será que é justo condená-los ao inferno já que eles nunca tiveram oportunidade de ouvir a mensagem do Evangelho?
Há várias respostas possíveis para essa pergunta, conforme eu identifiquei lendo sobre teologia analítica. Gostaria de avaliar cada uma das principais.
Primeira resposta: essa é clássica.
Se a salvação é um presente (graça), Deus tem a liberdade de concedê-la a quem desejar, sem que isso constitua uma injustiça contra os demais. Deus não deve salvação a ninguém. É uma resposta que segue a linha calvinista.
Para ilustrar esse cenário, imagine um homem rico em um abrigo de moradores de rua. O filantropo escolhe voluntariamente três pessoas e as presenteia com casas. Os outros moradores podem sentir tristeza por não terem sido escolhidos, mas não podem alegar que sofreram uma injustiça. O filantropo não tinha a obrigação de dar casas a ninguém. O fato de ele ter sido generoso com alguns não o torna devedor de todos os outros.
Estritamente falando, a resposta não está errada. O único problema é que, embora ela certamente seja consistente com a justiça de Deus, não é consistente com seu amor. Qualquer resposta satisfatória ao problema deve ser consistente com um Deus que é justo e amoroso ao mesmo tempo.
Vamos voltar para o nosso filantropo. Uma vez que Deus é onipotente, não existem limites para o que ele pode fazer. Portanto, uma analogia adequada deve nos levar a um filantropo que tenha recursos infinitos. Ele poderia ajudar todos os moradores de rua, mas ainda assim escolhe apenas alguns. Se ele afirma ser todo amoroso e amar todas as pessoas, a atitude dele certamente desmente essa afirmação.
Portanto, há uma questão aqui que precisa ser abordada: não é de alguma forma contrário à afirmação de Deus de amar todos que ele faça com que muitos deles nunca o ouçam?
Segunda resposta: a revelação geral. Embora muitos povos não tenham acesso ao fato de que Deus se revelou em Cristo, todos podem conhecer a Deus por meio da criação. Deus se revela nas coisas criadas. Também o fato de que somos pecadores poderia ser conhecido assim. Isso parece ser consistente com as afirmações de Paulo em Romanos 1. Portanto, esses povos poderiam ser julgados por sua resposta à revelação geral.
O problema é que mesmo que as pessoas respondessem de forma positiva à revelação geral, o evangelho vincula a salvação à pessoa específica de Jesus Cristo. Assim, esses povos poderiam ser condenados mesmo respondendo positivamente à revelação geral.
Terceira resposta: as pessoas poderiam ter acesso à mensagem do Evangelho após a morte. Segundo essa perspectiva, Deus estenderia a todos uma oportunidade de conversão no pós-vida. O problema é que essa resposta é claramente anti-bíblica (Hb 9:27). Não há muita ambiguidade nas Escrituras sobre a ausência de oportunidades após a morte.
Quarta e última resposta: essa me parece de longe a mais satisfatória. Ela passa pela doutrina molinista e pelo conhecimento médio de Deus.
Deus sabe exatamente quem aceitaria o Evangelho quando fosse exposto a ele. Assim, ele pode ter organizado o mundo e colocado cada pessoa no tempo e lugar certo para que todos aqueles que aceitariam o Evangelho tenham contato com ele. Portanto, aquelas pessoas que nunca ouviram o Evangelho podem ser exatamente aquelas que não o aceitariam mesmo se o ouvissem.
Além dessa resposta ser coerente, ela me parece muito bíblica:
“e de um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação, para que buscassem ao Senhor, se, porventura, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.”
Atos 17:26-28