Foram principalmente indígenas e africanos.
A expansão global do cristianismo não foi uma imposição cultural europeia unilateral, mas sim impulsionada primariamente por evangelistas, catequistas, tradutores e professores locais/indígenas, que adaptaram a mensagem e a enraizaram organicamente em suas próprias culturas. E, embora possa parecer surpreendente, isso hoje já é uma espécie de consenso acadêmico entre os historiadores do cristianismo.
Veja alguns exemplos:
1) Segundo o historiador cristão Mark A. Noll:
O grande surto de crescimento da adesão cristã mundial estava ocorrendo primordialmente por meio dos esforços de professores nativos, 'mulheres da Bíblia' locais, colportores e catequistas e evangelistas recém-convertidos. Os missionários frequentemente forneciam a centelha para esse processo de indigenização, mas eram quase sempre os crentes locais que abanavam essa centelha até transformá-la em chama.
E:
As traduções missionárias frequentemente trabalhavam em sentido contrário às intenções imperialistas ocidentais [...]. Como essas traduções frequentemente serviram de fundamento para o 'surgimento da resistência indígena ao colonialismo', elas influenciaram profundamente a história política e social, bem como o desenvolvimento teológico.
NOLL, Mark A. From every tribe and nation: a historian’s discovery of the global Christian story. Grand Rapids: Baker Academic, 2014.
2) Norman Etherington, fala no
papel negligenciado dos evangelistas indígenas, que fizeram muito mais do que os missionários europeus ou norte-americanos para difundir a religião cristã.
ETHERINGTON, Norman (ed.). Missions and empire. Oxford: Oxford University Press, 2005. (The Oxford History of the British Empire Companion Series).
3) Sobre a África, o mesmo autor do texto anterior escreveu em outro lugar:
As publicações missionárias dos séculos XIX e XX podem transmitir a impressão enganosa de que os principais agentes da expansão do cristianismo africano eram homens brancos nascidos no exterior.
E:
Os africanos [...] foram, em toda parte, a força dominante na expansão do cristianismo moderno.
ETHERINGTON, Norman. The history of Christian missions to Africa. In: Oxford Research Encyclopedia of African History. Oxford: Oxford University Press, 2019. DOI: 10.1093/acrefore/9780190277734.013.56.
4) Robert Eric Frykenberg diz que:
as missões mais próximas da autoridade imperial tiveram o menor sucesso.
E continua dizendo que o maior entusiasmo pelo cristianismo na Índia veio de pessoas situadas nas margens sociais e territoriais - incluindo comunidades Dalit e povos tribais e que:
foram evangelizados, em sua maior parte, por não britânicos.
FRYKENBERG, Robert Eric. Christian missions and the Raj. In: ETHERINGTON, Norman (ed.). Missions and empire. Oxford: Oxford University Press, 2005. p. 107-131.
5) David W. Kling escreve:
o ressurgimento cristão inesperado e amplamente negligenciado no mundo não ocidental tem sido um fenômeno pós-colonial, local e indígena, em grande parte independente da influência missionária ocidental.
E:
a suposição de que o crescimento do cristianismo na África está inextricavelmente ligado ao período colonial identifica equivocadamente o cristianismo na África com o missionário cristão ocidental.
KLING, David W. A history of Christian conversion. New York: Oxford University Press, 2020.
6) Emma Wild-Wold afirma:
As histórias do movimento missionário moderno frequentemente afirmam que os convertidos foram missionários mais bem-sucedidos do que os europeus.
WILD-WOOD, Emma. The travels and translations of three African Anglican missionaries, 1890–1930. The Journal of Ecclesiastical History, v. 67, n. 4, p. 781–798, out. 2016. DOI: 10.1017/S0022046915001669.
7) Outros estudiosos, Peggy Brock, Norman Etherington e Gareth van Gent, fazem a mesma declaração de consenso:
A maioria dos estudiosos atualmente reconhece que a notável expansão do cristianismo na África, Ásia e Pacífico nos séculos XIX e XX deveu-se muito mais aos esforços de pregadores indígenas do que aos missionários estrangeiros.
BROCK, Peggy; ETHERINGTON, Norman; GRIFFITHS, Gareth; VAN GENT, Jacqueline. Indigenous evangelists and questions of authority in the British Empire 1750–1940. Leiden: Brill, 2015. (Studies in Christian Mission, v. 46).
Os povos do Sul Global nunca foram receptores passivos de nada. Ao invés disso, eles sempre assumiram imediatamente o protagonismo e foram os responsáveis pelo crescimento do cristianismo nessas regiões. Não foi uma transmissão unilateral europeia ou uma imposição colonialista.