Se um governante fosse bom, não haveria crimes em seu país, mas há crimes. Se fosse mau, só haveria crimes. Porém também há segurança e pessoas vivendo em paz. Portanto, ele não pode ser bom nem mau. Deve ser amoral e indiferente ao sofrimento das vítimas. Afinal, se realmente fosse bom, usaria todo o poder do Estado para impedir absolutamente todo crime ou pelo menos minimizá-lo, ainda que para isso precisasse vigiar cada cidadão 24 horas por dia, eliminar sua privacidade e controlar suas ações, levando ao extremo mecanismos de vigilância como os empregados pela China contemporânea, pela Stasi na Alemanha Oriental ou pelo regime norte-coreano.
É óbvio que o absurdo está em pressupor que alguém bom necessariamente impediria todo mal que estivesse ao seu alcance impedir, ignorando que pode haver boas razões para tolerar a possibilidade de certos males a fim de preservar bens importantes (como liberdade, privacidade e autonomia, por exemplo).
Da mesma forma, não se segue que Deus seja indiferente ao mal simplesmente porque permite que criaturas livres pratiquem ações que ele poderia impedir.
Aliás, os próprios filósofos da religião praticamente já abandonaram esse argumento do problema lógico do mal. Ele é considerado superado e ultrapassado na filosofia. Filósofos ateus hoje preferem o problema evidencial do mal, que tem uma formulação bem mais modesta que essa que você defendeu. Veja as declarações de consenso da literatura acadêmica:
"A maioria das discussões contemporâneas sobre o problema do mal parte do pressuposto de que as formulações 'lógicas' do problema são insustentáveis e que, em vez disso, devemos trabalhar com formulações 'evidenciais'."
BETENSON, Toby. The problem of evil remains logically binding. Religions, v. 12, n. 3, p. 154, 2021.
"Depois de séculos de discussão, filósofos contemporâneos, incluindo a maioria dos ateus e agnósticos, reconheceram esse fato. Hoje admite-se amplamente que o problema lógico do mal foi resolvido."
MORELAND, J. P.; CRAIG, William Lane. Filosofia e cosmovisão cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2021.
"Formou-se um consenso de que as formulações 'lógicas' do problema do mal eram insustentáveis."
STERBA, James P. God and Purported Logical Arguments from Evil and Suffering. New Blackfriars, v. 105, n. 6, p. 668-680, 2024.
"Embora muitos estudiosos concordem que a defesa do livre-arbítrio de Plantinga responde adequadamente ao problema do mal lógico, o mesmo consenso não se aplica necessariamente ao argumento evidencial do mal."
APATA, Olaoluwa. The Problem of Evil and the Probity of Doing Theodicy from William Rowe's Evidential Argument from Evil. Liberty University, 2016.