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A Aposta de Pascal é um argumento criado pelo filósofo Blaise Pascal que diz que, diante da dúvida sobre a existência de Deus, a escolha mais sensata é viver como se Deus existisse. A ideia é que, se Deus realmente existir e a pessoa crer nele, ela pode receber a vida eterna. Se Deus não existir, ela terá perdido relativamente pouco. Já se a pessoa decidir não crer e Deus existir, a perda seria muito maior. Por isso, Pascal conclui que acreditar em Deus é a opção que oferece o menor risco e o maior benefício possível.

Talvez a objeção mais séria a esse argumento seja a chamada "objeção de muitos deuses", que afirma que a Aposta de Pascal falha porque haveria inúmeras divindades possíveis, cada uma oferecendo recompensas e punições eternas distintas. Por exemplo, e se no lugar do Deus cristão existir uma divindade que recompense a mentira? Em qual deles eu deveria acreditar e qual eu deveria seguir? Contudo, essa objeção não é bem-sucedida por pelo menos quatro motivos centrais, apontados na literatura acadêmica.

Primeiro, no contexto da teoria da decisão, é legítimo ignorar hipóteses cuja probabilidade é remotamente pequena. Portanto, não precisamos levar a sério possibilidades como Zeus ou Odin, pois o estado "Deus não existe" não inclui de modo realista um número ilimitado de divindades igualmente prováveis. A probabilidade das hipóteses não é a mesma, portanto aquelas com probabilidade remota podem ser ignoradas. Se não levássemos isso em conta, não poderíamos tomar decisão nenhuma em nosso dia-a-dia. Até para atravessar a rua, há infinitas possibilidades. Existe, por exemplo, a possibilidade de cair um avião do outro lado da rua. No entanto, essa possibilidade é tão improvável que pode e deve ser ignorada. As possibilidades não tem todas as mesma probabilidade. O mesmo vale para a Aposta.

Segundo, a própria intenção de Pascal provavelmente restringia as opções a um número manejável, especialmente entre o teísmo cristão e o naturalismo, já que Pascal abraçava com entusiasmo evidências cristãs, como a evidência da ressurreição de Cristo, sendo a aposta apenas parte de uma defesa mais ampla do cristianismo.

Terceiro, não basta imaginar qualquer deus possível; é preciso considerar qual concepção de divindade pode realmente oferecer o tipo de bem supremo envolvido na aposta. Apenas um Deus tradicional, perfeitamente bom, pessoal e poderoso, poderia fornecer um bem astronomicamente alto ou qualitativamente superior a qualquer outro (conforme definido em algumas suas melhores versões da Aposta). Um deus arbitrário que recompensa, por exemplo, saltar três vezes às terças-feiras não seria capaz de oferecer o valor supremo que está no cerne da aposta.

Por último, mesmo que exista mais de uma religião teísta plausível, isso não derrota a Aposta. Se o valor supremo não é pensado como infinito (como na versão de Joshua Golding da Aposta), a pessoa pode simplesmente escolher a religião que parece mais provavelmente verdadeira por outros motivos, ou ao menos escolher alguma forma de teísmo em vez do não-teísmo. Ou seja, mesmo com múltiplas opções teístas plausíveis, ainda é mais racional escolher algum teísmo do que a incredulidade, por causa do valor supremo da recompensa. Assim, a multiplicidade de tradições religiosas não cria um impasse decisório, mas apenas exige que se avaliem as evidências relevantes.

Portanto, a objeção de "muitos deuses" não invalida a Aposta de Pascal, pois (1) a maior parte das alternativas é irrelevante por ser extremamente improvável, (2) a aposta provavelmente restringe as opções a número manejável, (3) grande parte dos "deuses" propostos não satisfaz os critérios para oferecer o bem supremo envolvido na aposta e (4) mesmo entre perspectivas teístas plausíveis, ainda é mais racional optar por algum teísmo em vez da incredulidade.

GOLDING, Joshua. The Wager Argument. In: MEISTER, Chad V.; COPAN, Paul (Ed.). Routledge Companion to Philosophy of Religion. Routledge, 2013. p. 445-453.

MORELAND, James Porter; CRAIG, William Lane. Philosophical foundations for a Christian worldview. InterVarsity Press, 2017.

7 Respostas

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É a lógica. É melhor crer que não crer.

Porém ainda existem pessoas que querem continuar fazendo obras más, vivendo no pecado, por isso acham mais conveniente um deus não existir ou crerem em um deus personalizado à vontade e semelhança delas próprias.

A pessoa só quer se importar com a vida terrena então ela quer crer no que é mais conveniente a ela.
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Me corrija de estiver rquivocada.

Pelo que entendi do texto, a objeção dos "muitos deuses" enfraquece a formulação mais simples da Aposta de Pascal, mas não a destrói.

A versão refinada que descreve continua sendo considerada uma defesa filosoficamente séria: ela propõe que a aposta seja feita após avaliar as evidências, e não de forma arbitrária.
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Não enfraquece e nem destrói. Na verdade, a objeção não é bem sucedida, pelos quatro motivos que eu coloquei.
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Não é bem assim...

Primeiramente, porque nem sempre é possível “escolher” acreditar. Você pode até praticar a religião no sentido de cumprir as liturgias... Ir para a igreja, congregar com as pessoas, participar dos rituais, e mesmo assim não conseguir se convencer. Não seria uma fé sincera. E aí fica aquela coisa... Deus valoriza uma fé que não é genuína? Me responda você, porque eu não sei. Tem gente que sem uma prova palpável não vai se convencer jamais. Fé é isso... Ela não é um sistema lógico fechado, muitas das vezes ela parte da confiança e existem pessoas que simplesmente não confiam, por quaisquer motivos que são legítimos. A pessoa estaria encenando uma crença, na realidade.

E participar da religião tem um custo... Talvez Pascal tenha subestimado, porque na cosmovisão dele talvez o custo realmente seja pequeno no sentido de abdicar de certos “prazeres” pela vida eterna no Paraíso — que não sabemos se existe e, se existe, ninguém tem como garantir que ele foi para lá. E tem gente que não vai querer abdicar de relacionamentos, vínculos, carreiras, hábitos, e outras escolhas que são importantes para a vida dela pela possibilidade de talvez ir para o Paraíso.
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Veja também o que diz o maior estudo o estudo publicado até hoje sobre o assunto:

"No total, todas as variantes genéticas testadas corresponderam a 8 a 25% da variação no comportamento sexual entre homens e mulheres do mesmo sexo"

Ele também disse mais uma coisa muito interessante:

"…vários de nossos resultados também apontam para a importância do contexto sociocultural. Observamos mudanças na prevalência de comportamentos sexuais entre pessoas do mesmo sexo relatados ao longo do tempo…"

E:

"…isso pode refletir diferenças sexuais nas influências hormonais no comportamento sexual (…) mas também pode estar relacionado a diferentes contextos socioculturais de comportamentos entre mulheres e homens em relação ao mesmo sexo…"

GANNA, Andrea et al. Large-scale GWAS reveals insights into the genetic architecture of same-sex sexual behavior. Science, v. 365, n. 6456, p. eaat7693, 2019.

Analisando esse estudo, outro autor disse o seguinte:

"Quando os pesquisadores combinaram todas as variantes que mediram em todo o genoma, eles estimaram que a genética pode explicar entre 8% e 25% do comportamento não heterossexual. O restante, segundo eles, é explicado por influências ambientais, que podem variar desde a exposição a hormônios no útero até influências sociais na vida adulta."

KAISER, J. Genetics may explain up to 25% of same-sex behavior, giant analysis reveals. In: American Association for the Advancement of Science. 2019.

Essa também vai no sentido que não é algo determinado pela biologia e é mutável (e a autora não é conservadora):

"O conjunto existente de pesquisas internacionais que avaliam atrações, comportamentos e identidades sexuais entre amostras representativas de adolescentes e adultos mostra que a orientação sexual não é uma característica estática e categórica. Em vez disso, a sexualidade entre pessoas do mesmo sexo apresenta fluidez substancial tanto em homens quanto em mulheres, e essa fluidez assume diversas formas. Ela pode ser observada nas altas taxas de padrões de atração não exclusivos (ou seja, bissexuais) entre homens e mulheres; pode ser observada no fato de que mudanças históricas na aceitação social da sexualidade entre pessoas do mesmo sexo levaram a aumentos na prevalência populacional da sexualidade entre pessoas do mesmo sexo sexualidade; pode ser observada no grande número de homens e mulheres de minorias sexuais que mostram mudanças em seu padrão de atrações ao longo do tempo, até a idade adulta; pode ser observada no grande número de homens e mulheres que se envolvem de forma flexível em padrões de comportamento sexual que não concordam com sua identidade ou atrações autodescritas."

DIAMOND, Lisa M. Sexual fluidity in male and females. Current Sexual Health Reports, v. 8, n. 4, p. 249-256, 2016.
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Esse estudo de Yarhouse é um estudo restrito que trabalha com amostra de 300 homossexuais que voluntariamente optaram pelo celibato bíblico em contexto norte-americano. Ela não é uma pesquisa de caráter estatístico que nos permite generalizar automaticamente... E os próprios autores deixam isso bastante claro. É um livro pastoral, e que mesmo no título deixa claro que envolve custo e que esse custo está relacionado como parte da fidelidade da própria fé.

“Sexualidade não é algo estático ou imutável. É algo biopsicossocial que mudar ao longo do tempo.” — E aqui eu infelizmente sou obrigado a abandonar a conversa, porque é uma linha que eu não cruzo...

Essa conversa pode estar caminhando para uma potencial defesa de “cura gay” e, a partir daqui, o tópico já se torna sensível. Terapias de conversão sexual são amplamente rejeitadas e classificadas como pseudociências pelas principais entidades de saúde mental, incluindo o Conselho Federal de Psicologia (CFP) que o proíbe por resolução, pela falta de evidências comprovadas de eficácia... Só que com o agravante de serem estreitamente relacionada à práticas coercitivas, incluindo tortura física e até estupro corretivo em alguns casos.

Quero acreditar que não seja sua intenção legitimar tais práticas, mas da mesma forma que eu não me disponho a debater racismo, misoginia e quaisquer formas de preconceito como posições intelectuais, eu também não debato ideias que partam do pressuposto de que a orientação sexual de pessoas LGBT deva ser modificada. 

Agradeço a contribuição, mas a partir daqui é inegociável.

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Estudo que eu postei foi publicado pela Science. Se você acha que a Science está abraçando uma pseudociência, aí é com você. Brigue com a ciência então. Eu só estou veiculando aquilo que a ciência diz.

"Terapias de conversão sexual são amplamente rejeitadas e classificadas como pseudociências pelas principais entidades de saúde mental, incluindo o Conselho Federal de Psicologia (CFP), pela falta de evidências comprovadas de eficácia... Só que com o agravante de que ser estreitamente relacionada à práticas coercitivas, incluindo tortura física e até estupro corretivo (???)."

O que é chamado de "terapia de conversão" hoje nada mais é que uma psicoterapia de conversa. Se não acredita, pode pesquisar. É um erro agrupar, como a APA fez, em uma mesma categoria desde técnicas aversivas e traumáticas do século XX (como choques elétricos, indução de náuseas e coerção física/verbal) até psicoterapias de conversa voluntárias e focadas na clarificação de valores. É por isso que em países de primeiro mundo como a Holanda e os Estados Unidos, a proibição não passou. Lá eles entenderam que práticas abusivas já são proibidas por leis pré-existentes, mas que não há necessidade de proibir abordagens pacíficas e inofensivas, às quais as pessoas se submetem voluntariamente.
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Veja, por exemplo, essa análise da Resolução da APA sobre terapias de conversão:

"As mensagens proverbiais abrangentes feitas no relatório da APA sobre Esforços de Mudança de Orientação Sexual são que a EMOS está enraizada no heterossexismo e no monossexismo, incentiva o estigma, apoia intervenções semelhantes a horríveis, não funciona e é inerentemente prejudicial. Quando corrigidas as falhas metodológicas, no entanto, a pesquisa mostra que as metas orientadas para a mudança não pareciam ser uma explicação importante para os níveis atuais de sofrimento geral após a EMOS, e as chances de ideação suicida foram na verdade reduzidas. Embora retratem a EMOS apenas como apoio a intervenções semelhantes a horríveis, eles não mencionam nenhuma discussão sobre consumidores com narrativas positivas. O livro de Haldeman (2022a), que é na verdade uma regurgitação do relatório da APA (2021), não abordou pesquisas mais recentes sobre EMOS No entanto, para seu crédito, Glassgold (2022) (Presidente da Força-Tarefa da Associação Americana de Psicologia de 2009 sobre Respostas Terapêuticas Adequadas à Orientação Sexual) faz uma distinção clara entre formas mais antigas e aversivas de EMOS e abordagens mais modernas de terapia de conversa (p. 20).

A resolução da APA (2021) é falha em termos de teoria, lógica e ciência. Ela se baseia quase exclusivamente na teoria da minoria sexual, quando muitas outras teorias poderiam ser úteis. Ela se baseia fortemente em uma lógica seriamente falha, tratando a mudança de orientação sexual como inalterada e sem melhorias nas últimas seis décadas. Ela se baseia em ciência muito fraca e limitada, ignorando relatórios recentes sobre os resultados da mudança de orientação sexual, não considerando os tamanhos de efeito para tratamentos de mudança de orientação sexual, tratando resultados correlacionais como causais e, muitas vezes, ignorando maneiras de testar modelos mais complexos de mudança de orientação sexual. Em última análise, ela tenta desenvolver e promover políticas públicas sobre mudança de orientação sexual com estudos selecionados que contêm algumas ou todas essas limitações graves e impor essa política a estados e nações inteiras. Simultaneamente, a resolução da APA busca impor sua vontade aos outros e desacreditar quaisquer acadêmicos ou grupos que possam discordar dela."

ROSIK, Christopher. A Critical Review of the “2021 APA [American Psychological Association] Resolution on Sexual Orientation Change Efforts”. Noble international journal of social sciences research, 2022.
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Ops, eu não neguei que sexualidade é multifatorial...

Comportamento sexual e identidade sexual podem serem moldadas de acordo com o ambiente. Mas modificar a atração sexual que o indivíduo sente, no sentido de transformar uma pessoa gay em hétero e vice-versa, não parece estar sob controle voluntário... Muito menos induzido e/ou reproduzido pela prática religiosa. Isso não tem base científica.

E aí eu previ que essa conversa caminharia para cura gay — e provavelmente vai caminhar para isso mesmo — e aí eu já não discuto mais por um limite ético meu pelos motivos que eu apontei. Não considero a defesa de cura gay como uma simples controvérsia intelectual legítima, perdão.
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Eu penso que não se pode crer em Deus baseado na confiança em humanos. Se alguém crê em Deus porque crê no humano que lhe disse isso, não é uma crença salutar. A crença em Deus deve resultar da conclusão sobre uma consciência formada a partir da natureza das coisas e leis da existência de forma que nenhum humano individual interfira nessa crença.
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Não entendi. Aposta é um argumento prudencial, não diz que alguém deve crer em Deus por confiar em humanos.
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Na verdade eu me distanciei um pouco dos argumentos de Pascal e fui direto ao ponto sobre minha visão pessoal sobre crer em Deus. E o ponto fundamental foi mantido, ou seja, eu creio em Deus.
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O argumento não depende de confiar em Pascal. Como qualquer outro bom argumento, ele é convincente por mérito próprio, que seria mesmo se tivesse sido proposto por qualquer outra pessoa. Na verdade você pode até ignorar a figura de Pascal, e o argumento continuará forte mesmo assim. Ninguém diz que o argumento depende de confiar na pessoa de Pascal.
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Eu gosto de ouvir bons argumentos. Mas eu tenho uma prontidão para me refugiar na minha revelação pessoal, porque muitas vezes eu passei por situações em que argumentos convincentes me distanciavam do divino. E se eu me prender a eles, deixo de ver as possíveis controvérsias, que com mais tempo e calma, me devolvem a Deus. Apesar de aqui não ser esse o caso, que era algo favorável a Deus.
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Acontece que Deus também é soberano para usar até mesmo argumentos para convencer ou fortalecer a fé das pessoas. Deus usa os meios que ele quer. Pense, por exemplo, na conversão de C.S. Lewis. Ele foi convencido por argumentos racionais e foi assim que Deus se revelou a ele. A conversão dele impacta a sociedade até hoje.
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Tem 25% ou 1/4 de chance de eu ir pro inferno

Então tanto é perigoso ser um ateu,e Deus existir(aproveitar a vida,mas queimar no inferno),Quanto ser um Crente,e Deus nao existir(você não aproveitou nada da vida)

Esse é o tipo de aposta,que você tem chance de se dá mal em 50%,é um tipo de pegadinha!!!

Você só tem 50% de chance de se dá bem
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Acho que este argumento só faz algum sentido pra quem já é cristão, já que esta ideia de salvação do argumento vem do cristianismo e quem não é cristão não está preocupado em ser salvo.

A parte do texto sobre probabilidades também sofre do mesmo problema: o autor leva em conta que o Deus cristão é o único com probabilidade real de existir, mas sem dar uma justificativa razoável.
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Você cometeu um equívoco ao interpretar o argumento. A aposta de Pascal não parte do pressuposto de que a ideia cristã de salvação é verdadeira. Ao invés disso, ela funciona de forma pragmática a partir do cenário de dúvida, avaliando o custo e o benefício das escolhas possíveis. Além disso, o argumento não assume de forma arbitrária que o Deus cristão é o único com probabilidade real de existir, mas sim que, dentro da teoria da decisão, hipóteses bizarras ou com probabilidade remota podem ser descartadas para que possamos avaliar as opções teístas plausíveis e de maior valor que realmente estão em jogo.
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Mas e se eu considerar a ideia da salvação uma "hipótese bizarra ou com probabilidade remota"?

O argumento tenta provar Deus com base em outra ideia que também depende de fé, e acaba havendo a necessidade de medir não apenas uma probabilidade, mas duas ao mesmo tempo. Há ainda excesso de subjetividade ao calcular cada uma das probabilidades (e sub-probabilidades).
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Salic, classificar algo como "bizarro" ou "de probabilidade remota" não é uma mera questão de conveniência ou preferência pessoal, mas sim de plausibilidade filosófica. Quando a literatura acadêmica fala em hipóteses remotas ou bizarras, ela se refere a cenários ad hoc e arbitrários, como a existência de um deus que recompensa apenas quem pula de um pé só às terças-feiras, hipóteses que não possuem qualquer tradição histórica consolidada, fundamentação filosófica, razões racionais para serem levadas a sério e que tenham evidências contrárias aceitas por consenso. A salvação e o teísmo tradicional não entram nessa categoria. Além disso, a aposta não exige que você calcule probabilidades exatas e subjetivas como em uma equação matemática rigorosa. Pela própria lógica do cálculo prudencial de Pascal, mesmo que a probabilidade da salvação teísta seja considerada pequena, quando multiplicada por um valor de recompensa infinitamente superior ao custo terreno, a escolha pela crença continua sendo a decisão formalmente mais racional. Você não precisa fazer um cálculo matemático preciso para saber que a probabilidade de você atravessar a rua e não ser atingido por um avião é maior do que a probabilidade ínfima disso acontecer. Esse tipo de hipótese difícil de ser alcançada e de probabilidade baixa pode ser constatada por raciocínio simples e comum, com o qual todos nós concordamos.
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Mas existem tradições bem consolidadas que propõem que a salvação depende de não fazer nada no sábado, não comer carne de porco ou cortar o prepúcio. Pra quem está de fora, estes cenários parecem arbitrários ou bizarros, apesar de todo o suposto embasamento histórico, filosófico e cultural para os crentes destas religiões. Não vejo como fugir da subjetividade ao decidir o que é possível e o que é absurdo.  

Acho que o argumento fica muito centrado no cristianismo e acaba ignorando a real dimensão das possibilidades. Dependendo da escolha, a pessoa também poderia correr o risco de ficar presa por bilhões de anos na roda de samsara, passar séculos no umbral, reencarnar como um rato de esgoto e várias outras tragédias que não são consideradas pelo argumento. Há ainda a possibilidade de não haver nenhuma punição para a crença ou descrença em algum deus, mesmo ele existindo.
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Salic, o que você citou sobre não trabalhar no sábado não é um contraexemplo real, mas sim um debate interno do próprio cristianismo. Não é uma alternativa ao próprio cristianismo, mas sim algo que também está incluído nele. Além disso, no caso dos adventistas do sétimo dia, a teologia contemporânea deles, impulsionada pelo trabalho e pela influência de teólogos como Rodrigo Silva, já não ensina mais que a guarda do sábado é uma condição para alcançar a salvação, mas sim um fruto de gratidão e obediência à fé. Quanto ao risco de reencarnar como um rato ou passar eras no samsara ou no umbral, como eu já expliquei ao Valfar, esses cenários continuam não sendo aplicáveis à aposta de Pascal porque neles não existe o risco de uma perda infinita e irreversível. No Budismo, o "eu" individual nem sequer persiste para sofrer a perda, devido à doutrina do anatta, e nos demais sistemas reencarnacionistas você sempre terá novas chances e vidas para evoluir. Não existe chance de você perder tudo, porque se você falhar, o sistema sempre vai te dar uma nova chance. A aposta só se aplica estritamente a sistemas teístas que oferecem uma escolha definitiva com salvação ou condenação eternas.

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Aceitando as premissas me parece que a lógica interna é consistente. Mas acho que é meio utilitarista, talvez deva ser reformulado pensando nesse ponto:

P1) Para a vida eterna, é necessário que acreditar que Deus exista

P2) A vida eterna é o máximo bem possível em qualquer escolha

Conclusão: para o máximo bem é necessário acreditar que Deus exista.

Também a ideia de vida eterna poderia ser substituída por máximo bem se a intenção for ser mais generalista. Isso abarcaria hipóteses teístas de reencarnação de tradições sem uma salvação, mas que possuem um telos.

Ademais me pergunto como budistas objetam a isso. Eles não acreditam em Deus, mas o nirvana me parece ocupar posição similar a vida eterna.
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Você trouxe bons pontos, como sempre. Eu só diria que a aposta não se aplica à reencarnação. No Budismo (com a ideia de Anatta, ou não-eu) e no Hinduísmo, a pessoa que você é hoje, com sua memória, ego e personalidade, não sobrevive à morte. O que renasce é apenas um fluxo de consciência ou karma, sem a continuidade da sua identidade. Não é você. Já nos sistemas em que a individualidade e o "eu" realmente continuam existindo após a morte, como no Espiritismo, a aposta também não se aplica, porque não existe a ameaça de uma perda eterna. Se você errar ou tomar as decisões erradas nesta vida, não vai para ficar separado definitivamente de Deus nem perderá tudo para sempre. Você sempre terá novas oportunidades e vidas para aprender e evoluir. A aposta de Pascal só funciona quando há uma decisão única com um risco absoluto e irreversível em jogo.
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A perda eterna aqui seria a ausência de ganho:

H1) Acreditar em Deus e Deus existe: bem aventurança.

H2) Acreditar em Deus e Deus não existir: nada acontece.

H3) Não acreditar em Deus e Deus existe: nada acontece.

H4) Não acreditar em Deus e Deus não existir: nada acontece.

A primeira oferece ganho infinito, as outras não. Ou talvez o estado em H1 seja o natural e os outros uma corrupção, de forma que eles são uma perda infinita relativamente à H1 (seria difícil convencer ateus dessa parte, no entanto).

Embora eu não descartaria a possibilidade de haver algo que se assemelhe a esse fluxo cármico que continue após a morte e determine o estado em que se nasce na próxima vida. Isso levaria a uma perda infinita na H3 porque a cada reencarnação a alma estaria "mais distante" da bem-aventurança. Uma espécie de poluição na alma que faz a transmigração e torna cada vida mais difícil.
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Acontece aqui no caso de tradições orientais como o budismo, não seria a sua alma. Não seria realmente eu você que reencarnaria, independentemente das suas escolhas. Então você não precisa se preocupar com ganho ou perdão infinito depois da morte, porque essa pessoa chamada "Guilherme" nem vai existir mais. Não existe um eu permanente.

Já nas tradições que acredito em eu permanente, aposta também não faz sentido porque não existe perda infinita envolvida. O máximo que pode acontecer é isso que você falou: você reencarna em situações piores, mas não é algo eterno e nem permanente. É apenas uma situação temporária para que você melhore. E se você não melhorar, você sempre terá uma nova chance. Então você não precisa se preocupar com a possibilidade de uma perda infinita, porque isso não existe.

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