Talvez nenhum assunto seja tão controvertido nas discussões quanto à escravidão e o abolicionismo na história. A tese marxista de Eric Williams de que o Reino Unido aboliu o tráfico e a escravidão por pressões de mercado e necessidade de mão de obra assalariada é um anacronismo que já se encontra completamente superada na academia especializada.
O historiador Seymour Drescher, uma das maiores autoridades mundiais nessa área, em seu estudo Econocide: British Slavery in the Era of Abolition, sepultou essa teoria ao demonstrar que as colônias escravagistas britânicas (como as do Caribe) ainda eram altamente lucrativas e estavam no auge de seu valor econômico quando o tráfico foi proibido em 1807. A decisão britânica de sufocar o tráfico e, posteriormente, abolir a escravidão em 1833 não foi um ato de interesse financeiro, mas sim um "econocídio". O império sabotou os próprios lucros imediatos, arcou com indenizações astronômicas e financiou uma frota naval inteira, a West Africa Squadron, para patrulhar o Atlântico movido por uma avassaladora pressão moral, intelectual e religiosa interna. Mencionei isso por mais de uma vez no falecido Redask.
Além disso, também é interessante lembrar que o motor desse movimento não veio apenas de grupos religiosos cristãos dissidentes, mas também da própria fundação do pensamento conservador cristão moderno. Décadas antes do surgimento dos movimentos antiescravistas, o pai do conservadorismo, Edmund Burke, já questionava a legitimidade moral da escravidão no plenário da Câmara dos Comuns, mesmo representando eleitores diretamente envolvidos no comércio ultramarino. Por volta de 1780, Burke redigiu o Esboço de um Código Negro, que foi o primeiro plano abrangente e formal para a abolição gradual do tráfico de escravos na história anglo-americana.
Para Burke, as leis de mercado deveriam governar bens materiais, mas o tráfico de seres humanos chocava os princípios da humanidade. O pesquisador Gregory Collins, estudioso especialista na filosofia burkeana, "a oferta e a demanda paravam na alma". Esse projeto de reforma gradual comprovadamente serviu de base teórica e inspiração para os maiores nomes do abolicionismo britânico, incluindo William Wilberforce, Thomas Fowell Buxton e Edward Stanley.
Além disso, a tentativa de traçar um paralelo direto entre a Revolução Haitiana e os processos abolicionistas nas colônias britânicas, nos Estados Unidos ou no Brasil é forçada. A analogia não funciona, porque o Haiti possuía fatores únicos que estavam completamente ausentes nos outros países. Por exemplo, no Haiti, a população de escravizados superava a de homens livres em uma proporção esmagadora de quase 10 para 1. O controle militar dependia de um fio de cabelo. Nos EUA e no Brasil, a distribuição demográfica e a estrutura das forças de segurança estatais eram infinitamente mais complexas, diluídas e institucionalizadas. Toda grande revolta escrava que surgiu foi facilmente sufocada. Por fim, elas pararam de acontecer entre as décadas de 1830 e 1840.
A revolução haitiana ocorreu devido ao vácuo de poder e ao caos institucional criado pela Revolução Francesa. Nas colônias britânicas, nos EUA, no Brasil Império e em muitos outros lugares, o estado mantinha o monopólio da força e era muito estável. Isso impedia que revoltas localizadas (como os Malês em Salvador, que durou menos de um dia e foi rapidamente sufocada) escalassem para uma guerra de independência ou ruptura do sistema. Além disso, a revolução haitiana terminou em 1804, mas a escravidão foi abolida nas colônias britânicas cerca de 30 anos depois. Nos Estados Unidos, cerca de 60 anos depois, e no Brasil, cerca de 80 anos depois. Levando em conta todo esse intervalo de tempo, não parece que o medo de uma revolta de escravos tenha impactado tão significativamente a abolição nesses países. Ao invés disso, as discussões sobre a abolição que ocorreram na época se concentraram em outros fatores. Pelo menos, se acreditarmos no que nos dizem as fontes contemporâneas, foi assim.