Não podemos utilizar critérios anacrônicos. Uma abolição total da escravidão há mais de dois ou três mil anos atrás era absolutamente impensável. No entanto, a Bíblia nunca aprovou a escravidão, ao invés disso ela a regulamentou. E os regulamentos bíblicos tinham o objetivo justamente de impedir os abusos dessa instituição. É o que um governo faz quando não pode abolir de uma vez uma instituição ou prática nociva. Basta ver, por exemplo, as políticas dos governos atuais de combate ao álcool e ao tabaco. Eles não podem proibi-los de uma vez, mas estabeleceram várias políticas para reduzir seu consumo progressivamente e combater excessos (fiscalização no trânsito, limite de idade para compra, avisos nas caixas de cigarro, etc). Isso não quer dizer que o governo não seja contra o cigarro e o tabaco. Pelo contrário, ele estabelece regulamentações diante da impossibilidade prática de abolir totalmente o consumo dessas substâncias. No caso da escravidão, algo parecido foi feito.
Por exemplo, um escravo deveria ser libertado no sétimo ano de escravidão; só seria escravo a vida inteira quem escolhesse ser (Êx 21:2). Quando fosse libertado, o dono do escravo deveria lhe dar sustento para o ajudar a começar a viver em liberdade (Dt 15:12-14). Escravos tinham direito a folga no sábado e nas festas religiosas, assim como pessoas livres. Quem causasse danos físicos ao escravo tinha de libertá-lo em compensação; se um senhor matasse seu escravo, seria punido (Êx 21:26-27). Escravas não poderiam ser usadas como prostitutas e uma escrava que se tornasse esposa tinha direito de proteção a vida toda. Raptar alguém para vender como escravo era punido com morte; essa lei destruía o negócio do tráfico humano (Êx 21:16). Um escravo poderia ser resgatado por um parente; em algumas situações o próprio escravo conseguia pagar seu resgate. Se um escravo fugisse, não deveria ser devolvido ao seu senhor, nem receberia punição (Dt 23:15-16). Escravos de outros povos não tinham o direito de ser libertados no sétimo ano, mas tinham todos os outros direitos.
O Novo Testamento então nem se fala. Jesus disse que veio parar dar liberdade aos cativos e aos oprimidos (Lc 4:18-19). Paulo cita traficantes escravos entre pessoas que estão rebelião com a lei de Deus (I Tm 1:10). Ele também diz para que Filemon recebesse de volta Onésimo, seu escravo fugitivo, como um querido irmão em Cristo. I Coríntios 7:21 incentivou os escravos a obterem a própria liberdade se puderem (o que era possível na época, pois um escravo em Roma podia acumular posses e comprar a própria liberdade). Um texto muito citado pelos críticos da Bíblia é Efésios 6:5-8, que orienta os escravos a obedecerem a seu senhores, mas as pessoas dificilmente lêem o versículo seguinte (Ef 6:9), que ordena aos senhores que tratem bem seus escravos. Paulo também diz que escravos e livres são todos um em Cristo, igualdade espiritual, sem distinções (Gl 3:28). Foi com base nesses princípios bíblicos que os abolicionistas combateram a escravidão depois. Praticamente todos os abolicionistas eram cristãos.
Na Bíblia, o que existe é a gestão de uma realidade social da época (escravidão por dívida), com foco na proteção do indivíduo e na eventual libertação, não uma aprovação dessa instituição. É uma pedagogia progressiva.