O culto tava normal na pequena Assembleia Rocha Eterna até o momento em que o pastor decidiu começar uma pregação sobre vaidade, corpo e obsessão estética.
Na terceira fileira estava ele: Joãozinho Maromba.
Regata apertada. Shape absurdo. Braço parecendo um botijão de gás premium.
O cara passava mais tempo vendo pose no espelho do que olhando o próprio CPF.
O pastor olhou diretamente pra ele e mandou:
— Tem gente aqui achando que músculo compra paz… mas a bomba cobra o preço depois.
A igreja ficou em silêncio.
Joãozinho fingiu que nem era com ele, mas lentamente abaixou o celular onde ele tava vendo vídeo de dorsal no espelho.
Aí o pastor continuou:
— Deus tá me mostrando alguém aqui… alguém que recebeu uma “revelação”. Se continuar nesse caminho… a bomba vai matar você.
Pronto.
Acabou ali.
O psicológico do Joãozinho simplesmente evaporou igual pré-treino batendo em jejum.
Na hora ele gelou.
Porque na semana anterior ele tinha sentido uma dorzinha aleatória no peito depois de subir uma escada correndo atrás do ônibus.
A mente dele conectou tudo instantaneamente.
“Meu Deus… é comigo.”
Naquela noite ele não dormiu.
Foi pesquisar:
“primeiros sinais de infarto”
“coração aumenta com bomba?”
“dor no mamilo pode ser fatal?”
“shape grande diminui expectativa de vida?”
“Arnold sobreviveu como?”
Cada pesquisa piorava a situação.
O algoritmo começou a recomendar:
vídeo de cardiologista sério;
thumbnail escrito “MORREU AOS 23”;
maromba chorando;
exame de fígado;
documentário sombrio com piano triste.
Em três dias Joãozinho tava surtando.
No treino ele fazia supino olhando pro teto pensando: “Será que esse é meu último pump?”
Toda palpitação virava despedida da vida.
Se o braço formigava: “Acabou.”
Se tossia: “Meu coração.”
Se dava azia: “Meu fígado entrou em falência.”
O pior foi quando ele tentou aplicar confiança na academia e um frango comentou:
— Mano… você tá pálido.
Pronto.
Joãozinho quase viu a luz.
Depois disso ele entrou numa fase completamente paranoica:
começou a medir pressão 14 vezes por dia;
comprou ômega 3, chá detox e magnésio sem nem saber pra quê;
passou a assistir vídeo de monge falando sobre paz interior;
trocou música de trap agressivo por instrumental de floresta.
Mas o psicológico dele nunca mais foi o mesmo.
Antes ele olhava pro espelho pensando: “Shape de guerra.”
Agora ele olhava pensando: “Será que meu ventrículo esquerdo tá espesso?”
E dizem que até hoje, quando alguém fala a palavra “colateral” perto dele, Joãozinho Maromba automaticamente abre o Google e pesquisa sintomas em silêncio.