Não dá pra levar muito a sério o Ranking Mundial da Felicidade. Vários estudiosos já o tem criticado. O problema já começa na própria definição do que está sendo medido. Apesar do nome, o relatório não mede felicidade no sentido em que normalmente empregamos a palavra, ou seja, estados afetivos positivos, alegria, contentamento emocional ou bem-estar psicológico. Ele se baseia quase exclusivamente Escada de Cantril, que consiste em uma única abstrata na qual o entrevistado avalia sua vida numa escala de zero a dez, entre a "pior vida possível" e a "melhor vida possível". Isso não é uma medida direta de felicidade. No máximo é uma avaliação cognitiva da vida, algo mais próximo de status percebido, sucesso material e posição social do que de bem-estar emocional propriamente dito. Satisfação com a vida e felicidade não são a mesma coisa, e pesquisas empíricas confirmam isso.
As pessoas que respondem a pesquisa também não a interpretam em termos de felicidade. Estudos experimentais recentes, como o conduzido pela Universidade de Lund, mostram que a linguagem da pergunta, a metáfora da escada, a oposição entre "topo" e "base" e a ideia da "melhor vida possível", induz fortemente associações com riqueza, poder e status social. Não é sem razão que os países mais bem qualificados no ranking costumam ter um pib per capita maior.
Para piorar, existe apenas uma correlação muito fraca entre os resultados do relatório e indicadores que normalmente associamos à felicidade real. Se países como Finlândia, Dinamarca e Suécia fossem de fato os mais felizes do mundo, o esperado seria que apresentassem baixos níveis de depressão, ansiedade, uso de antidepressivos e suicídio. No entanto, os dados contam uma história bem diferente. A Finlândia, o suposto "país mais feliz do mundo", apresenta taxas elevadas de depressão entre jovens, uso significativo de substâncias químicas e índices de suicídio que, apesar de terem melhorado um pouco nos últimos anos, continuam acima da média europeia.
Outros estudos usaram metodologias diferentes, possivelmente melhores, e chegaram a resultados diferentes sobre os países mais felizes:
https://www.bloomberglinea.com.br/2022/12/27/qual-e-o-lugar-mais-feliz-do-mundo-acredite-ou-nao-sao-os-eua/
https://www.performancemagazine.org/ranking-countries-on-the-happiness-factor/