Durante a Idade Média, a sociedade vivia profundamente imersa em um imaginário no qual o invisível tinha tanto poder quanto o visível. Isso incluía medos relacionados à morte, ao Diabo, a espíritos e à ação de forças sobrenaturais, como detalhado por historiadores como Jean Delumeau e fontes culturais da época. O medo não era apenas uma emoção individual, mas frequentemente coletivo, estruturando comportamentos sociais e religiosos. O homem medieval buscava meios visíveis de enfrentar ou afastar essas ameaças, seja pela fé, pela Inquisição ou por símbolos protetores. As carrancas, por sua vez, representam uma forma de manifestação cultural de caráter apotropaico, ou seja, destinadas a afastar o mal, espíritos ou forças invisíveis consideradas perigosas. Apesar das carrancas surgirem historicamente no Brasil mais tardiamente (século XIX), a sua função simbólica encontra paralelos claros com práticas medievais europeias, em especial com as gárgulas e figuras grotescas esculpidas em templos, mosteiros e edifícios, que tinham expressões aterrorizantes com a finalidade de afastar espíritos malignos e proteger os fiéis.