Não é bonito, mas cumpre o propósito dele.
Na realidade, quando Tarsila do Amaral pintou Abaporu (1928), não era para ser bonito mesmo. Essa ideia de beleza enquanto objetivo central dentro de um ideal de harmonia e proporção surge dentro de um contexto de tradição europeia clássica... E a partir dos séculos XIX e XX surgem movimentos que se propõem a desafiar essa visão, incluindo o modernismo que é o movimento do qual Tarsila do Amaral fazia parte. A intenção dela é provocar estranhamento mesmo.
O valor de Abaporu não está na beleza, mas no impacto... Torna-se central no Movimento Antropofágico porque se propõe a “devorar” aquela visão eurocêntrica e criar algo próprio. As proporções distorcidas com cores chapadas são o ponto disso, não são erro. Pinturas como Guernica (1937) de Pablo Picasso e O Grito (1893) de Vincent Van Gogh têm valor porque são disruptivas, não porque são bonitas.
Nem toda pintura é para servir de decoração de interiores.