Essa é a parte 2 da minha avaliação sobre a redução da jornada de trabalho feita de qualquer jeito. Veja a parte 1 aqui.
Em 1982, o governo socialista da França reduziu a jornada de trabalho por lei.
Eis os resultados, conforme um relatório do próprio Senado francês:
"Em 1982, a redução de 4,5% da duração legal do trabalho no conjunto da economia, correspondente à metade do choque atualmente considerado, teria criado pouquíssimos empregos — entre 15.000 e 70.000, segundo as estimativas — ao preço de um agravamento dos desequilíbrios macroeconômicos, particularmente de uma aceleração da inflação e de um aprofundamento dos déficits públicos, bem como de um agravamento duradouro dos problemas estruturais da economia francesa, tendo uma grande parte dos empregos criados ocorrido nas empresas públicas." (O grifo é meu)
Fonte: FRANCE. Sénat. Les éléments d'information sur les conséquences financières, économiques et sociales de la décision de réduire à trente-cinq heures la durée hebdomadaire du travail. Rapport n. 279 (1997-1998). Rapporteur: Jean Arthuis. Paris: Sénat, 1998.
Um estudo mostrou que empregos também foram afetados, embora em menor medida:
"Nossos dois métodos de avaliação demonstram que os efeitos da redução da jornada normal de trabalho foram grandes. Em nossa primeira análise, o efeito em um ano é um aumento de 3,9 pontos percentuais na probabilidade de transição do emprego para o não emprego [...] para trabalhadores empregados por 40 horas em 1981, assim como para trabalhadores que faziam horas extras naquele mesmo período. Nossa segunda análise fornece um limite inferior de 2,3 pontos percentuais para essa diferença nas taxas de transição. Nossas duas metodologias produzem resultados semelhantes, embora os dados e as hipóteses sejam bastante diferentes." (O grifo é meu)
E para os que ganhavam menos foi ainda pior:
"Mais importante, o efeito estimado para os trabalhadores de baixos salários é grande, 8,4%, e estatisticamente significativo. Por outro lado, o efeito estimado para trabalhadores mais bem remunerados é apenas marginalmente significativo. [...] Os efeitos da redução da jornada de trabalho sobre as perdas de emprego são muito fortes para os trabalhadores de baixos salários." (O grifo é meu)
Por fim, os autores concluem claramente que a política francesa de redução da jornada de trabalho foi a causa desses problemas:
"As mudanças na jornada semanal legal levaram a perdas de emprego, contrariamente aos objetivos iniciais dessas políticas."
Fonte: CRÉPON, Bruno; KRAMARZ, Francis. Employed 40 hours or not employed 39: lessons from the 1982 mandatory reduction of the workweek. Journal of Political Economy, Chicago, v. 110, n. 6, p. 1355-1389, 2002. DOI: 10.1086/342807.