1 - Não afirmei que Deus é ignorante ou é pego de surpresa, mas sim que Ele escolhe voluntariamente não exercer a onisciência de forma preditiva a todo o momento — da mesma forma que Ele possui poder infinito, mas escolhe não descarregar energia infinita o tempo todo. Você confundiu capacidade com exercício constante.
2 - Se Deus é soberano sobre Si mesmo e onipotente, Ele perfeitamente pode limitar o próprio acesso à informação em tempo real ou optar por não computar o futuro de forma linear de tudo e de todos, assim como Ele pode conter o próprio poder. Para um ser atemporal, o futuro não é uma memória estática que Ele é forçado a assistir; o você tratou o conhecimento de Deus como algo mecânico e inevitável, ignorando a liberdade de ação divina que os próprios textos citados (como Deus testando Abraão para saber o que há em seu coração) parecem sugerir. Se Deus sabia que Abraão era fiel não haveria necessidade de tal prova.
3 - Nenhum ser humano empreenderia em um projeto sabendo que resultaria a perda de bilhões de dólares. Deus se tivesse previsto o futuro e mesmo assim insistisse nele falharia na justiça pois segundo a Bíblia inúmeros anjos se rebelaram (note que os únicos que precisaram provar algo para Deus foram Adão e Eva) e no entanto o pecado começou no céu. No entanto a Bíblia não diz que Deus submeteu os anjos a uma prova e lealdade. Se Deus soubesse que a encrenca começaria no céu deveria ter submetido a um teste de lealdade TODOS os anjos pois são dotados de livre-arbítrio assim como o ser humano. E tanto os anjos como os seres humandos eram perfeitos dentro de suas respectivas espécies.
Do ponto de vista estritamente ético, a responsabilidade de um criador que coloca em andamento um sistema com falhas catastróficas previsíveis é um dos nós Górdios da teologia (o problema do mal). Se Deus sabia exatamente quem cairia, quem se perderia e quanto sofrimento isso geraria antes mesmo de criar a primeira estrela ou ser espiritual, prosseguir exatamente da mesma forma desafia o conceito humano — e bíblico — de justiça, previdência e bondade.
Se o pecado começou no céu com a rebelião dos anjos, e tanto anjos quanto humanos possuíam livre-arbítrio e perfeição em suas naturezas, por que apenas a humanidade passou por um "período de testes" explícito na linha do tempo (com árvores, proibições e provações graduais na terra), enquanto a queda angélica ocorreu sem um processo probatório formal documentado da mesma forma?
A Bíblia realmente não relata um "teste no Éden" para a hoste celestial antes da queda de Satanás; a rebelião parece ter ocorrido por uma escolha direta de seres em pleno conhecimento de sua posição. Apontar essa assimetria expõe como os argumentos tradicionais tentam justificar os testes humanos (como em Gênesis ou Deuteronômio) enquanto deixam em aberto o vácuo explicativo sobre como criaturas perfeitas puderam pecar do nada no ambiente perfeito do céu.
Se seres perfeitos criados por um Deus perfeito puderam escolher o pecado de forma autônoma, isso significa que a perfeição estática não garante imunidade ao erro e que o livre-arbítrio carrega em si a incerteza genuína. Se há incerteza genuína, a ideia de um futuro pré-escrito e totalmente antecipado colide diretamente com a realidade da escolha livre. Se o futuro já era fixo e conhecido por Deus antes da criação, o livre-arbítrio deixa de ser real e passa a ser uma simulação.
Ou Deus sabia de tudo antecipadamente (e, portanto, é moralmente responsável por criar um sistema que Ele sabia que falharia em larga escala), ou Deus dotou as criaturas de um livre-arbítrio tão real e autônomo que o futuro precisou ser deixado em aberto, permitindo que Ele se relacionasse com o ser humano no presente dinâmico (como indicam os textos de testes e provações mencionados.)
O que novamente apoia que o ato de prever o futuro respeita o libre arbítrio ou a necessidade do momento e não a dinâmica de ter que varrer o futuro a todo o momento. A incoerência, Deus submeteria humanos a um teste de lealdade no paraíso perfeito mas não seria capaz de prever a rebelião que iniciaria no céu com um anjo de alta categoria que mais tarde arrastaria inúmeros anjos junto?
Bíblia retrata Deus submetendo Adão e Eva a um teste no Éden e testando Israel no deserto por meio de privações e mandamentos (como nos textos de Gênesis 22, Deuteronômio 8 e Juízes 3). A justificativa tradicional para esses testes é que Deus precisa "saber" o que está no coração do homem ou dar a ele a oportunidade de escolher livremente.
Se Deus é onisciente no sentido de já possuir o "filme completo" do futuro gravado na eternidade, testar alguém é uma redundância teatral. Não se testa quem já se conhece perfeitamente. Colocar seres perfeitos à prova para ver como vão agir só faz sentido lógico em um cenário onde o resultado não está predeterminado, ou seja, onde o futuro é genuinamente aberto e moldado pelas escolhas do presente.
É um paradoxo monumental que um anjo de alta patente (que muitos chamam por Lúcifer) tenha conseguido gerar uma rebelião de proporções cósmicas no céu — um ambiente de perfeição absoluta e proximidade imediata com a glória divina —, sem que haja o registro de nenhum "período de teste" ou árvore de proibição para as hostes celestiais.
Se Deus previu a queda do anjo que muitos chamam de Lúcifer e a apostasia de uma boa parte dos anjos, e ainda assim permitiu que o foco do teste de lealdade recaísse quase exclusivamente sobre a humanidade frágil no barro da Terra, a balança da justiça divina desmorona. Como justificar punições severas ou decretar a condenação eterna por escolhas em um sistema que o Arquiteto projetou e sabia exatamente como colapsaria?
Tentar sustentar que Deus sabia de tudo desde a eternidade passada, mas que o livre-arbítrio dos agentes ainda era inviolável e que Ele ainda mantinha uma justiça impecável ao criar seres sabendo que eles ruiriam, resulta em um labirinto teológico onde a bondade e a justiça de Deus precisam ser sacrificadas em nome de um dogma filosófico posterior.