Um pouco de mim...
Quando a vida fica grande demais para tão pouco de nós
Há um momento da vida em que o silêncio muda de significado.
Antes, silêncio era descanso. Hoje, às vezes, parece ausência.
A casa permanece no mesmo lugar, os objetos continuam obedientes sobre os móveis, o relógio insiste em caminhar e, lá fora, existe um mundo inteiro acontecendo. Mas dentro de mim há dias em que nada acontece.
E então chega o vazio.
Não aquele vazio dramático, que faz barulho e pede socorro. É pior: é um vazio educado. Senta-se ao meu lado sem dizer palavra e fica.
Nesses dias, penso em tudo o que já fui. Nas pessoas que precisaram de mim, nas preocupações que me fizeram perder o sono, nas responsabilidades que pareciam intermináveis. Houve um tempo em que eu desejava apenas um pouco de sossego.
Engraçado.
Às vezes conseguimos o sossego e descobrimos que ele também pode doer.
Porque ninguém nos ensina o que fazer quando deixamos de ser necessários. Passamos tantos anos servindo para alguma coisa — cuidando, resolvendo, trabalhando, esperando, sustentando mundos pequenos — que acabamos confundindo utilidade com existência.
E quando tudo isso diminui, surge a pergunta que evitamos fazer:
O que resta de mim quando ninguém precisa de mim?
Talvez reste justamente aquilo que nunca tivemos tempo de conhecer.
Eu.
Mas confesso que ainda não sei muito bem o que fazer comigo.
Então caminho pela casa, olho pela janela, escuto alguma música e observo mais um dia passando.
Às vezes penso que sou apenas espectadora da vida.
Mas alguma coisa dentro de mim — pequena, teimosa, quase imperceptível — ainda olha para o amanhã com curiosidade.
E talvez seja isso que me mantém aqui: não a certeza de que amanhã será melhor, mas a possibilidade de que ainda exista alguma coisa que eu não vi.