Não respondi antes porque tive que pesquisar o que estava acontecendo, então não quis tirar conclusões precipitadas. Então, vamos lá...
Como você deve saber, Ceuta e Melilla são dois territórios que pertencem à Espanha, mas que estão geograficamente localizados no continente africano e, além disso, são o único ponto de conexão por terra entre a África e União Europeia. É antigo já... Particularmente falando de Ceuta, era um território marroquino que foi anexado pelos portugueses em 1415 durante a Reconquista cristã. Permaneceu com Portugal durante os anos de dinastia filipina, mas foi transferido para a Espanha em 1668 após o fim da União Ibérica. Desde então, é território espanhol, e extremamente estratégico por causa do Estreito de Gibraltar, que conecta o Oceano Atlântico com o mar Mediterrâneo. O Marrocos ainda reivindica Ceuta e Melilla... Afirma que os enclaves estão em território marroquino e que os espanhóis devem devolver, e obviamente a Espanha não devolve.

Além desses dois, havia uma antiga colônia espanhola na África chamada Saara Ocidental. Foi uma ocupação tardia, os espanhóis chegaram lá em 1884 após a Conferência de Berlim, que repartiu o continente africano... Antes disso, o Saara Ocidental era e até hoje é habitado por nômades berberes e árabes que viviam de maneira totalmente descentralizada. Os espanhóis abandonaram o Saara Ocidental em 1975 e desde então o território é reivindicado por Marrocos... Só que existe um grupo pró-independência chamado Frente Polisário, que quer fundar a República Saarauí Democrática e que é apoiado pela Argélia. Por ser ex-colônia espanhola, a Espanha também participa ativamente dessa questão territorial por mais que não reivindique mais a soberania... E o Marrocos utiliza-se de Ceuta e Melilla para pressionar a Espanha na disputa não é de hoje.

Tendo isso em mente, vamos aos acontecimentos políticos recentes...
Em julho de 2026, o Supremo Tribunal de Espanha, que é o máximo do poder judicial do país, mudou o entendimento a respeito de deportações sumárias de imigrantes irregulares... Eles decidiram que os imigrantes irregulares só podem ser extradidatos sumariamente e compulsoriamente se atravessassem a fronteira por vias terrestres, mas os que viessem por mar, seja por barco ou por nado, têm o direito de aguardar a decisão — se serão extraditados ou não — em território espanhol. Isso isoladamente não explica completamente a invasão, e pode-se chamar de invasão porque é uma massa de mais de 50 mil pessoas entrando simultaneamente, que não começou imediatamente após a decisão, e que não parece ser proveniente de um movimento espontâneo. Não chega a ser uma invasão militarizada como o VOX, que é um partido de extrema-direita espanhol estreito ao franquismo, está afirmando que é para instrumentalizar a situação como pauta política anti-imigração... Mas é, sim, uma invasão.
Vamos voltar ao Saara Ocidental...
Até 2022, as relações entre Espanha e Marrocos estavam boas... Nessa época, a Espanha havia congelado as relações diplomáticas com a Argélia devido ao plano de “autonomia” do Saara Ocidental. Nessa época, a Espanha estava mais favorável ao Marrocos. Mas recentemente isso mudou... A Espanha se reaproximou da Argélia, tanto é que o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez esteve na Argélia recentemente e assinou um acordo que transformou a Argélia no principal parceiro energético da Espanha, e agora a Argélia fornece 34% de gás natural. Mais do que isso, a Espanha também flexibilizou a entrada de imigrantes de Saara Ocidental que tivessem alguma relação com a Espanha (existem descendentes de espanhóis no Saara Ocidental).
A reação do Marrocos foi essa. Apesar do governo marroquino negar que coordenou a invasão, e não termos como comprovar que realmente o governo marroquino está envolvido diretamente nisso, é correto dizer com certeza que o governo de Marrocos afrouxou a contenção da fronteira... Em outras palavras, deixou os marroquinos irem para Ceuta. Liberaram e fizeram de conta que não estavam vendo, porque sabiam que essa invasão vai desgastar Sánchez — que agora virou inimigo político do Marrocos por ter se reaproximado da Argélia — e provocar uma crise política no país.
Sánchez respondeu reafirmando que Ceuta é território espanhol, que está sob soberania espanhola, e que iria reforçar a presença militar na fronteira... Vamos ver o desenrolar disso daí.