Em primeiro lugar, a distinção tradicional entre "imagem" e "semelhança" de Deus provavelmente é falsa. Os dois termos em Gênesis funcionam como paralelismo hebraico, ou seja, são expressões sinônimas usadas para reforçar a mesma ideia. Assim, não há dois aspectos diferentes no ser humano, mas apenas uma única realidade: o homem foi criado de modo especial para refletir Deus.
Há três principais interpretações da imago Dei: a substancialista, a relacional e a funcional. A interpretação funcional, defendida por J. Richard Middleton, é, talvez, a mais popular hoje. Segundo essa perspectiva, imagem de Deus consiste na função humana de governar a criação como representante de Deus. Middleton baseia essa leitura no contexto de Gênesis 1, onde o homem recebe domínio sobre a Terra, e também em paralelos do Antigo Oriente Próximo, onde reis egípcios e mesopotâmicos eram chamados de "imagem" deuses. Esses reis frequentemente erguiam estátuas ou imagens de si mesmos em terras distantes sob seu domínio. Embora o significado dessas estátuas seja controverso, no caso dos faraós é fato que eles erguiam imagens para representar sua autoridade em terras distantes.
Certamente o homem possui uma função régia na criação, mas essa função não define a imagem de Deus. Exercer domínio é consequência da imagem, não sua essência. Portanto, a própria interpretação funcional pressupõe certas características ontológicas do ser humano, como racionalidade, agência pessoal, autoconsciência e liberdade. Em outras palavras, o homem só pode cumprir sua função de representante divino porque possui uma natureza semelhante à de Deus em certos aspectos. A função depende da ontologia, e não o contrário. Portanto, a própria interpretação funcional acaba caindo logicamente em uma interpretação substancialista da imago Dei. Tanto a interpretação funcional quanto a relacional (imagem como a capacidade de entrar em comunhão amorosa com Deus e com os outros) pressupõem uma visão substancialista da Imago Dei. Isso é algo que o próprio Middleton admitiu. O homem só pode desempenhar uma função porque compartilha de características pessoais com Deus. A função (governar) depende intrinsecamente da ontologia (a substância/natureza do ser). Ela pressupõe racionalidade e agência, sem as quais a função de governar é impossível. Além disso, os paralelos do Antigo Oriente Próximo não favorecem uma interpretação funcional, mas uma interpretação "encarnacional". Nos textos egípcios, o faraó era visto como manifestação viva da divindade, alguém através de quem o deus agia no mundo. Isso não corresponde ao ensino de Gênesis, porque o judaísmo rejeitava a ideia de seres humanos como encarnações divinas. Portanto, esses paralelos são inadequados para definir o significado bíblico da imagem de Deus.
Outro ponto importante é Gênesis 5:1-3, onde Sete é descrito como tendo nascido "à imagem e semelhança" de Adão. Isso é decisivo para a interpretação substancialista. Sete não era um representante funcional, e nem um corregente, de Adão, mas, ao invés disso, compartilhava sua natureza humana. O texto indica uma semelhança ontológica entre pai e filho. Da mesma forma, o homem é à imagem de Deus porque possui uma semelhança real com Ele. Portanto, a imagem de Deus consiste principalmente na pessoalidade humana. Deus é um ser infinito e pessoal. O homem, embora finito, também é pessoal. É isso que o distingue do restante da criação. Assim, racionalidade, autoconsciência, liberdade e agência moral são aspectos dessa semelhança ontológica com Deus. O homem pode representar e governar a criação porque, diferentemente dos animais e das coisas impessoais, ele participa de algo análogo à pessoalidade divina.
Alguns podem objetar que alguns animais também apresentam tais características conforme demonstrado por experiências, mas essa conclusão distorce o que é essas experiências é realmente demonstraram. Por exemplo, uma das principais experiências demonstrava que os chimpanzés seriam capazes de se reconhecer no espelho (embora até mesmo isso seja contestado). O fato é que, embora primatas superiores possam ter uma consciência rudimentar de si mesmos, eles não possuem o chamado "ego transcendental", que é como os filósofos chamam a capacidade de refletir sobre os próprios estados mentais, de estar consciente de si mesmo como um "eu", de dizer "eu penso isso" antes de qualquer coisa em que acreditem. Da mesma forma, embora os chimpanzés demonstrem inteligência significativa, eles não possui a capacidade de apresentar pensamento abstrato, como fica claro pela sua incapacidade de aprender uma linguagem, por mais que os cientistas gastem horas de instrução para tentar atingir esse objetivo. Portanto, esses animais não possuem racionalidade e livre-arbítrio. O homem, por outro lado, possui autoconsciência, racionalidade e livre-arbítrio, sendo, portanto, pessoa no sentido mais pleno da palavra.