Uma das maiores bizarrices jurídicas e sociais do mundo romano (e que pouca gente conhece) era o conceito da Patria Potestas (o poder paternal).
Em Roma, o chefe da família era o pater familias, o homem vivo mais velho da linhagem, e não era apenas um "pai de família" no sentido moderno. Ele tinha, por lei, o direito de vida e morte sobre todos os seus descendentes, independentemente da idade deles.
Se um filho cometesse um crime grave, desonrasse a família ou se o pai simplesmente decidisse que não tinha condições de criar um recém-nascido, ele podia legalmente executar o filho ou abandoná-lo para morrer à exposição.
Um homem romano de 40 anos, senador ou general de exército, se o seu pai ainda estivesse vivo, legalmente não era dono de seus próprios bens. Tudo o que ele adquiria pertencia ao pai. Ele só se tornava totalmente livre e dono de si quando o pai morria.
O pai podia vender os filhos como escravos temporários para pagar dívidas. A lei das Doze Tábuas apenas limitava que, se um pai vendesse o filho três vezes, ele perdia a patria potestas sobre ele.
E por que ela acabou?
Esse poder foi se desgastando ao longo dos séculos por uma mistura de evolução moral e necessidade do próprio Estado romano.
Imperadores como Augusto, Adriano e Trajano começaram a intervir no âmbito doméstico. O Estado passou a considerar que tirar a vida de um filho sem o julgamento de um magistrado era assassinato, retirando o ius vitae necisque.
Com as campanhas militares, os filhos soldados passaram a ter direito legal sobre os bens adquiridos na guerra, que o pai não podia tocar.
Talvez o principal fator foi que, nos séculos IV e V, com a cristianização do Império, o conceito de família mudou drasticamente. O infanticídio e o abandono de crianças foram formalmente criminalizados, e o direito romano foi reformulado, culminando no Código de Justiniano, para transformar a patria potestas em um dever de proteção e educação, e não mais em um poder de propriedade. O cristianismo foi essencial.