Se a gente olhar os fatos sem anacronismo, o que a Bíblia apresenta nem sequer se encaixa direito na definição sociológica de escravidão. A própria Enciclopédia Britannica define que, na escravidão real, "o escravo era uma espécie de propriedade" e os escravos "eram objetos da lei, não seus sujeitos. Assim, como um boi ou um machado, o escravo geralmente não era responsabilizado por seus atos." Só que a lei bíblica segue justamente na direção oposta. Ela não trata o servo como um objeto descartável, mas como alguém que possui direitos e dignidade.
No Antigo Testamento, o mais comum era uma servidão ligada a dívidas, funcionando como uma espécie de contrato de trabalho temporário. Como explicou a estudiosa Carol Meyers: "Esta servidão normalmente não envolvia propriedade permanente e não era tecnicamente forçada; era a decisão voluntária de um indivíduo endividado ou de seus pais. Embora sua posição legal pudesse ter algumas características em comum com a dos escravos, essas pessoas são melhor consideradas servos por contrato do que escravos, porque o último termo tem conotações que não se encaixam no status dessas pessoas."
E isso aparece claramente nas próprias leis bíblicas, que não têm paralelo no restante do mundo antigo. Enquanto as legislações da época normalmente protegiam os interesses do senhor, o Anchor Bible Dictionary reconhece que "Encontramos na Bíblia o primeiro apelo na literatura mundial para tratar os escravos como seres humanos, para o seu próprio bem, e não apenas para interesse de seus senhores."
Basta olhar alguns exemplos: o sequestro e o tráfico de pessoas eram crimes punidos com a morte (Êx 21:16); se um servo fugisse, a lei proibia que ele fosse devolvido ao senhor (Dt 23:15-16); eles tinham direito ao descanso no sábado; e, se sofressem agressões graves ou mutilações por parte do senhor, recebiam liberdade imediata (Êx 21:26-27). Além disso, a servidão não era permanente: no sétimo ano o servo deveria ser libertado, e o senhor ainda tinha a obrigação de ajudá-lo financeiramente para que pudesse reconstruir a vida com dignidade (Dt 15:12-14).
No Novo Testamento, Paulo coloca os traficantes de escravos entre os rebeldes contra Deus (1 Tm 1:10). E, na carta a Filemom, pede que Onésimo seja recebido “não mais como escravo”, mas como irmão amado.
Então dizer que a Bíblia apoia a escravidão apenas porque traz regras sobre ela é um erro muito básico. Regular algo não significa aprová-lo ou considerá-lo moralmente ideal. O Estado hoje regula o cigarro com impostos, restrições e proibições justamente porque reconhece os danos causados por ele. É uma forma de limitar abusos e administrar uma realidade que não consegue eliminar imediatamente. A lógica da legislação bíblica é semelhante: Deus regulamentou uma prática social já existente naquela cultura para reduzir abusos, proteger pessoas vulneráveis e conduzir a sociedade gradualmente para algo melhor.
Não é por acaso que, historicamente, foram justamente cristãos, baseados nesses princípios bíblicos, que lideraram a luta pelo fim da escravidão no mundo.