Se duas pessoas, em condições minimamente livres, concordam em trocar algo porque ambas entendem que sairão ganhando, não há motivo óbvio para considerar a troca injusta. O problema está em dizer que o capitalismo faz as pessoas terem apenas o que merecem. Isso não decorre do funcionamento do mercado. O preço de algo não é uma medida objetiva de mérito moral. Uma pessoa pode ganhar muito porque possui uma habilidade extremamente demandada, porque herdou capital, porque possui uma posição privilegiada, porque assumiu riscos, porque teve sorte ou por uma combinação dessas coisas. Outra pode trabalhar muito e continuar pobre. Mercado e mérito não são sinônimos. A própria filosofia da justiça distingue explicitamente princípios baseados em mercado, necessidade, igualdade, responsabilidade e merecimento.
"Ninguém devia ser obrigado a suprir necessidades dos outros sem ganhar nada em troca."
Se você levar esse princípio literalmente, ele também questiona coisas que a maioria das sociedades capitalistas considera legítimas: educação pública, vacinação, polícia, defesa nacional, saneamento, assistência emergencial e uma infinidade de serviços financiados coletivamente. Você pode defender que essas obrigações sejam reduzidas, beleza, mas precisa apresentar um argumento adicional. O simples fato de alguém não ter participado de uma troca voluntária não demonstra que a sociedade não possa legitimamente exigir uma contribuição dela.